segunda-feira, novembro 27, 2006

...

Tu és o meu rumo

Tu és o meu norte

Sem ti estou perdido

Sem ti não sou ninguém...

A minha voz não sai

E as pernas não andam

Marte não está perto

Sem ti ele não existe

As folhas são mero papel branco

No qual as palavras saem sem nexo

Sem ti não sou ninguém...

O doce é insosso

E o sal nem chega a adoçar...

A chuva parece molhar

Mas são as lágrimas que secam

Os olhos cegos fingem ver

E as mãos trémulas mal sentem a luz

Sem ti não sou ninguém...

Querer parar...

Mas as unhas não deixam

E o sangue pára só de pensar

E a mão treme só de pensar

E o cantar não é igual

E o ser não é igual

Se parar morro...

Se não escrever engulo em seco

E aí tudo será pior

E aí a fonte seca

Se me faltares eu não escrevo

Se me faltares eu seco

Se me faltares sufoco

Se me faltares desapareço

Se me faltares, as meias que estão no meu chão deixarão de lá estar, e aí... aí não sou eu, deixei de escrever, sequei, sufoquei, desapareci, deixei de ser eu...

Não me faltes...

2003

Simplicidade

Há momentos em que, por mais acompanhado que se esteja, não se consegue estar sozinho! Sim, aquelas alturas em que o mais pequeno barulho do silêncio nos incomoda, e em que desejamos estar rodeados de gente, e estamos! É extremamente irritante, quase chegando ao ponto de ser aconchegante. Até o olhar de um peixe num aquário se torna insurdecedoramente silencioso. Procuramos a paz da agitação, mas não, tudo tirou o dia para nos chatear, incluindo nós próprios! Sim, porque eu consigo ser pacificamente irritante para comigo. Digamos que sou o meu pior inimigo, em todos os aspectos.

Procuro sempre arredar-me de todos estes problemas, mas o facto é que não é possível parar o mundo por uns minutos, minutos esses de divino sossego, e fazer com que ele cumpra com todas as nossas reivindicações e direitos.

Eu só quero um canto para mim, com um colchão, água quente, e aquecimento central, e se não fosse pedir muito, comida, um sabonete, e um discman, ou mesmo uma grafonola, não sou esquisito. Ah, e muitos cd’s ou discos. Pouco mais era necessário, até porque, a partir daqui tratam-se de luxos e não bens realmente essenciais... Posso até parecer um pouco esquerdista, posso até o ser... mas é um facto de que seria feliz apenas com pequenos confortos e luxos. Não sou idealista, mas há coisas bem mais importantes do que ter tudo e mais qualquer coisa.

Um exemplo é viajar pelo mundo. Para mim de valor inestimável, o conhecimento de outros lugares e culturas é um pequeno luxo ao qual todos deveriam ter direito, porque não, só depois escolher o sítio onde viver. Assim sim, isso era qualidade de vida. Mas lá está, para a maioria de nós, quando temos possibilidades para o fazer, já não temos nem vontade, nem força para o fazer, ou melhor, para o fazer em condições.

Não damos o real valor às coisas que realmente o merecem, enquanto isso o euro já vale mais que o dólar.

2004

2º acto...

O ser não basta

O querer não chega

A inocência é necessária

O saber um prémio

É talvez impossível

Querer algo tão apetecível

Mas são poucos a desejá-lo

É belo e utópico

É indescritível e transparente

Procurado a todo o momento

Em cada passo dado

Em cada dedo levantado

Foge e esconde-se

Disfarça sem passar despercebido

Mas existe...

Já testemunhado e sentido

É pássaro que não foge no Inverno

É folha que não cai em Outubro

Persiste e é eterno

Como a tinta ao passar no papel

E existe...

É verdadeiro e leal

É uma ponte p’ra felicidade

Estando em ambos os lados

É forte e fortalece

É sombra durante a noite

E luar em pleno dia

É “contentamento descontente”

É presente e omnipotente

É voar sem sair do chão

Cair sem magoar o coração

Ser e deixar matar

É renascer a cada dia

Sem nunca deixar este mundo

É ler numa folha duma árvore

Entre veios e pautas sem fim

Manter-se a sonhar constantemente

Viver em pleno sonho

Acordar com frio

Porque se adormeceu de calor

É contra-senso óbvio e compreensível

É querer mais nada

E tudo ser capaz de ter

E nada pedir em troca

E nada mais querer p’ra viver

É ser humano animal

Mas não se vê, não se explica

Não surge do nada, surgindo do desconhecido

Que seja

Amar...

2001

O mais nobre dos desenhos

Escrever é um escape

É uma arte

Ao alcance de todos.

É perpetuar o pensamento

É aliviar a consciência

Sem aborrecer o tempo

Sem fugir ao presente

É descobrir asas em pleno mar

Fugir entre medusas e anémonas

E acordar nas nuvens

Subir para uma janela

Ver uma gota a escorrer

Sem que nunca pare

E encontrar um piano a flutuar

No reflexo da mesma

E encontrar musica

E descobrir que não é mais que uma lágrima

E continuar a chorar

Para que a musica não acabe...

Escrever é imaginar

É sonhar acordado

E poder desenhar o desejado.

Escrever é um vício

Escrever é um vício. Por mais que não se queira volta-se sempre ao mesmo. Eu já gostei de escrever. Agora... agora é um vício, um escape, uma maneira de libertar tensões, de mentir sem se ser criticado, ou de dizer a verdade fingindo que se mente.

Duas perguntas: será que se pode ter uma crise de meia idade aos vintes? E será que se pode ter mais maturidade do que os que nos rodeiam, ou mesmo bem mais velhos? Ou se pode achar que se tem maturidade a mais (sendo isto um problema) quando na realidade temos é tempo livre a mais...? Podemos apenas estar a ser pretensiosos.

Quando olhamos à nossa volta, por exemplo, num autocarro às oito da manha e vemos toda aquela gente compenetrada nos seus pensamentos, no seu emprego, para o qual se dirigem e o qual 50% nem sequer gosta, nem sequer nos apercebemos que no seu dia-a-dia essas mesmas pessoas não têm cinco minutos para pensar... para parar e abstrair-se toda a futilidade que os rodeia e poder observar e sentir aquilo que realmente interessa. Quantos de nós já parámos para ouvir o silêncio? Quantos de nós já chegámos ao ponto de achar que a própria respiração é tão barulhenta que se pudéssemos baixar-lhe o volume o faríamos...? Eu já. E é bastante aborrecido, para não dizer irritante, achar que somos muito poucos aqueles que já o fizeram, sabendo também que há muitas pessoas que gostavam ou o queriam fazer mas não conseguem... ou então nunca o tentaram...

Para algumas pessoas, o “estar propositadamente parado” é muito difícil de fazer. Não é que pensar seja propriamente uma actividade, mas não deveria ser? Não é isso que nos distingue dos outros animais (pensamos nós...)? Talvez devesse ser instituída uma disciplina de ITP, Introdução a Técnicas de Pensar. Mas neste caso quem seriam os professores? Filósofos? Os filósofos acabam sempre por se enganar a si próprios a pensar que pensam. Dizem que a Filosofia é a alternativa da Ciência, mas acabam por cair no mesmo erro, de tentar explicar demasiado as coisas, que na sua maioria não é suposto terem explicação. Pensam demais. Não têm regra. Para além de que, não conseguiram responder à pergunta mais importante de todas: “Como viver?”.

Sim, nunca ninguém me soube responder a esta pergunta, e se houve alguém que andou lá perto não foram os filósofos, complicam demasiado as coisas. E dizem-se detentores da razão. Nem as religiões o sabem responder. Pronto, dizem: “Pratica o bem, segundo estas regras”, se fosse assim não haveria uma única pessoa boa a passar fome no mundo, e nenhuma criança do mundo sofreria...

E assim se vai deixando passar dia após dia, sem se dar por ela... sem se tirar partido de tudo aquilo que nos é oferecido... sem por exemplo, parar para pensar....

2004

1º acto...

Amor de 4 letras não surge a qualquer um, está predestinado, está reservado

Não surge sem querer

Aparece sem saber

Não avisa

Dá a quem o merece

É grande, é enorme

É lindo...

Não se identifica

Não fala, não vê

Mata e faz nascer

Renasce para viver

É incrível

É indescritível

Desconhecido, anónimo,

Invisível

Surge a dobrar

Sempre correspondido,

Nem sempre valorizado

Nem sempre desejado

Vive

Não escolhe momentos

Nem deixa escolher

Não deixa palavras

Faz jorrar lágrimas

Aquece as almas

Dói no coração

Alegra e traz felicidade

O amor não julga

Olha àquilo que existe

Não procura, tem...

Não decide, não dá escolha

Faz tremer qualquer um

Inspira e faz pensar

Torna-nos egoístas

Aparece com frequência

Nunca acaba, é eterno

É infinito, é impensável

Não lê, apenas pensa

É verdadeiro

Não ajuda, pelo contrário

Resiste a tudo e todos

É belo

É demasiado grande

Para se esconder,

É luminoso, é característico,

É aquilo para o qual existimos

É aquilo que buscamos

A lágrima mais sentida

O sorriso mais cobiçado

A droga mais pesada

O luxo mais caro

O poder mais ambicionado

O bem mais precioso.

2001